silveirasemfoto.com

FÉ E PODER EM SILVEIRAS


Vera Lúcia Vilhena de Moraes (IEV)
“A vila de Silveiras está edificada em uma e outra margem da estrada geral de São Paulo.
Fica reclinada em uma planície um pouco baixa, o que faz com que se não possa gozar a
sua perspectiva senão de qualquer das alturas dos morros que a rodeiam especialmente da
colina onde está edificada a pitoresca capelinha do Patrocínio (...) a vila tem três praças. A
primeira é a da matriz, cujo edifício é de arquitetura pesada e está agora em reparos, pois
havia chegado a um estado lamentável de ruína.” Augusto Emilio Zaluar, Peregrinação
pela Província de São Paulo (1860-1861)
INTRODUÇÃO
No Brasil, a História da Igreja ficou marcada pelo espírito do regalismo decorrente do
padroado português. O regalismo dos reis de Portugal, desde o começo da colonização,
manteve a Igreja do Brasil separada da Santa Sé.
A Constituição de 1824-1889, estabeleceu a união entre o Estado e a Igreja e como religião
oficial do Estado a Igreja Católica Apostólica Romana. A Igreja seria o sustentáculo da
ordem fortalecendo a sociedade com suas firmes noções de hierarquia. Pelo direito do
Padroado era o Imperador quem escolhia os bispos e os párocos e fundava novas dioceses e
paróquias. Era a Fazenda real que recolhia os dízimos com os quais pagava (muito mal) os
párocos, que não passavam de funcionários reais.
O Estado não caminhava na direção de uma secularização, mas de um reforço do regalismo,
que conservava o altar como o principal sustentáculo do trono, através da valorização do
clero secular. O clero era obrigado a seguir as leis do Império e as leis da Igreja. Assim,
qualquer oposição entre a lei religiosa e a lei civil levaria inevitavelmente a uma crise.
Havia ainda o Beneplácito pelo qual o governo imperial somente reconhecia a validade das
leis eclesiásticas depois que elas fossem expressamente autorizadas por ele. Assim quando
o Papa Pio IX (1864 Bulla Syllabus) condenou a maçonaria, proibindo a participação dos
católicos naquela sociedade.
No Brasil, a bula papal; não teve aprovação do governo imperial, estabelecendo-se um
conflito entre o Estado e a Igreja. O clero secular, embora não muito numeroso, participou
largamente da vida política, recebendo títulos honoríficos e tendo muitos de seus membros
assento no Parlamento e alguns até nos governos das Províncias e nos municípios como
vereadores.
Durante o longo reinado de D.Pedro II (1840-1889) foi de total estagnação da Igreja ,
D.Pedro se recusou a criação de novas dioceses para não aumentar o número dos militantes
em favor da Cúria Romana fazendo guerra sistemática às ordens monásticas, algumas das
quais, arrastando existência inglória, vivendo demais para a impaciência do regalismo
dominante.; e proibindo a entrada no país dos brasileiros que houvessem professado no
estrangeiro.
Pessoalmente D.Pedro II era católico e de prática religiosa melhor do que a média dos
brasileiros em seu tempo. e a princesa Isabel era chamada de “a beata.” Nesse ambiente de
religião oficial, havia uma forte tradição de costumes cristãos, devoções, procissões e festas
da igreja, prestigiadas pelas autoridades públicas, mas muito pouca prática dos
sacramentos.
Aceito oficialmente como religião do Estado, o Catolicismo Romano era a religião dos
senhores, dos homens livres e, nominalmente, dos escravos. Com a Proclamação da
República (1889) e a Constituição de 1891 tivemos a separação entre o Estado e a Igreja, a
liberdade religiosa, o casamento civil e o ensino laico, E o Brasil continuou católico.
Porém, a influência da Santa Sé aumenta, como também a presença dos padres estrangeiros
no Brasil que se torna visível na reforma das igrejas. Foi nobre o esforço do clero brasileiro,
para se adaptar à nova situação, sob a orientação dos seus chefes supremos, como podemos
observar na afirmação, de Dom Candido Mendes: “Um bom clero, instruído e edificante,
como desejamos, poderá por meio da prédica e do ensino, por meio de uma discussão
inteligente e leal, esclarecer a opinião, conseguindo que César se limite aos horizontes do
seu poder, e não usurpe o que é de Deus.”
A função política da igreja na República é grande, pois a influência dos padres nas eleições
é forte.”Os políticos procuravam aguardar o padre”, e se o padre desse o apoio ganhavase a
eleição.
CAPELAS. IGREJAS...
Nascer e morrer, como os demais atos da vida em Silveiras, inseriram-se numa marcante
atmosfera religiosa, pois a precariedade das condições de existência e pela circulação
restrita de uma cultura letrada dominada por eclesiásticos, a religião desempenhou a visão
de mundo para interpretar e dar sentido à vida. Ao nascer a criança era registrada ao ser
batizada na igreja, depois recebia os ensinamentos religiosos e fazia a Primeira Comunhão
era Crismada, participava das missas aos domingos e dias santos, os festejos religiosos; se
fosse rapaz fazia o seu Alistamento militar na igreja; o Casamento religioso católico; até na
Morte a religião o acompanhava, pois o cemitério pertencia à igreja e os bens da igreja
eram administrados :pelos “fabriqueiros funcionários da igreja, indicados pelo vigário e
aprovados pelo bispo como podemos observar no livro da Fábrica da Matriz 1852 – livro de
200 folhas. as pessoas que eram enterradas dentro da Matriz pagavam 10$000, e no pátio da
Matriz $500- “No Brasil, as cidades começaram com uma capela ou igreja em volta da qual
ia crescendo o casario. Em Silveiras se deu o mesmo fenômeno com o estabelecimento dos
primeiros habitantes junto ao Caminho Novo que ia de Lorena ao Rio de Janeiro. Os
Silveiras construíram um grande rancho, onde os viajantes encontravam pouso e comida. O
rancho se transforma em um arraial. Surge a primeira capela de que se tem notícia é a
“Capela dos Pitas”, de pau-a-pique, no centro do Varjão. Essa capela, coberta de folhas de
piteira é um marco agregador, onde os primeiros moradores se reuniam para rezar e trocar
idéias sobre os problemas do povoado que surgia. Com o tempo padres foram aparecendo e
organizando irmandades religiosas, para irem pondo em prática, no povoado, hábitos
cristãos, e um certo sentido administrativo, porque a Igreja preparava líderes, fiéis, para
dirigirem as comunidades.
Quando o povoado alcançava uma certa importância era elevado à Freguesia, e a Igreja, que
na época estava no poder, confundindo-se com o Estado, traçava os limites da freguesia,
que era criada quando já havia no local um consciente espírito religioso, e obediência
irrestrita às leis da Igreja. A Freguesia era sede de jurisdição de um padre. Só depois de ser
elevada à freguesia é que Silveiras aparece nos mapas oficiais da época.
A Capela Curada de Nossa Senhora da Conceição dos Silveiras, foi elevada a freguesia por
lei de 25 de dezembro de 1829, sancionada pelo Bispo e Vice Governador em exercício da
Província de São Paulo, D. Manuel Joaquim de Andrade. A freguesia foi criada a 18 de
dezembro de 1830. “... contava com quatro casas, ainda duas de palha e duas de telha, uma
das de telha servia de Matriz”.
A Matriz de taipa foi construída por seu primeiro vigário, pe Manoel Felix de Oliveira, era
do estilo da que existe em Areias e era tão grande que uma carroça não podia transitar nas
ruas laterais da igreja.
A freguesia de Silveiras foi, pela lei provincial de 28 de fevereiro de 1842 elevada a
categoria de vila; porém nesse mesmo ano a Revolução de 1842 prostou por quase 2 anos
essa nova vila...
No dia 14 de novembro de 1873, Dom Lino Deodato Rodrigues de Carvalho bispo de São
Paulo fez uma visita pastoral a Silveiras. Nesta visita, entre as recomendações que deixou,
está a de consertar a igreja matriz que ameaçava a ruir, como consta no livro do Tombo da
igreja.
Infelizmente a espaçosa igreja foi demolida, a picareta, levando muito tempo, em vez de
restaurada, não sabemos porque! Em 1897, Pe João Alberto Stupenengo começou uma
nova capela. Em 1900, por ocasião das festas do século, a missa solene de meia noite foi
celebrada na igreja nova ainda inacabada.
Em 1908 -Construção da terceira igreja ( foto), o material utilizado foi o tijolo. O telhado
era montado em terra (marcavam as várias partes do telhado com lápis de carpinteiro ) e
depois o montavam em cima das paredes.
A torre era ligada ao corpo da igreja. Havia um púlpito de madeira, móvel, na forma de um
cálice, que era transportado na procissão do encontro.
Essa igreja foi ampliada em 1909, por Francisco Bastos e João Antunes de Macedo, no
tempo que a paróquia esteve a cargo dos capuchinhos de Taubaté” Os documentos da igreja
registraram:
“O bispo autoriza o vigário de Silveiras receber do senhor Francisco de Magalhães Bastos,
oferecimento de uma casa (sobrado) que foi deixada em testamento pelo falecido sr. João
Antunes de Macedo, para servir de residência paroquial na cidade de Silveiras- Mais as
terras pertencentes a mesma –clausula inalienável – e os direitos de 440$000 de
transmissão que deveriam ser pagos pelo Bispado mas, foram pagos pelo sr Bastos que fez
esmola dessa quantia.
Registrado no livro do Tombo.”20 de abril de 1910 “Diz o abaixo assinado, que estando
construindo à sua custa, na cidade de Silveiras, uma igreja, que pretende oferecer a Diocese
governada por Va. Excia, para ficar servindo de Matriz, visto que na paróquia de Silveiras
não tem Matriz. Pretende o abaixo assinado mandar fazer um tribuna que fique sendo de
sua exclusiva propriedade, passando por sua morte à sua família, cuja tribuna deverá ser
feita encima da capela do lado direito, que servirá para Sacristia, de modo que não ocupará
espaço, nem prejudicara a estética do templo ...” A petição foi atendida.Francisco Alves de
Magalhães Bastos. 31 de maio de 1910.
“. A capela ao S. S. Sacramento da Matriz local, quando da reforma da igreja em 1910, foi
toda pintada a óleo, sem ônus para alguém, pelo fervoroso católico, Francisco Sodero,
ostentando em suas paredes guirlandas de parreiras com folhas e cachos, cálices sagrados e
hóstias e raios de luz”. Dona Serafina Sodero.
Pela Provisão de 23 de julho de 1910 foi benta, no dia 31 de agosto de 1910, às onze horas
e quinze minutos da manhã, a Igreja Matriz, pelo Vigário Frei Jacynto de Siqueira de
Piracicaba, Capuchinho.
Segundo o artista Herculano Cortez (87):
“As cinco imagens de madeira existentes na Igreja vieram de Triestre antes de 1920: São
José, Coração de Jesus, São Sebastião, São Benedito, e N. Senhora dos Passos. A Igreja
matriz de 1909 era de assoalho e havia uma sacristia de cada lado. Na entrada da igreja
estava escrito: proibido cuspir no assoalho.
Havia túmulos dentro e em volta da igreja. Anacleto Pinto foi enterrado debaixo do altar da
Matriz e sua mulher na capelinha do cemitério, que foi reformada por José Cunha da Silva,
arquiteto e escultor, A matriz de 1910 foi destruída ,a picareta, demorou vários anos para
conseguir derrubá-la. Durante a Revolução de 1932 a igreja foi muito respeitada, ela não foi
tocada, somente apresentava alguns arranhões na pintura no quarto do Santíssimo.
O Sr Zequinha Lemos que tocava o sino na época do pe Antonio relatou: -“a igreja possuía
uma espécie de turíbulo de prata, com um lugar para colocar azeite no centro e que só era
aceso uma vez por ano durante a Semana Santa; quando o turíbulo descia do teto para ser
limpo, o pe Antonio não deixava nem ascender temendo que fosse danificado; havia
também a lâmpada do Santíssimo, castiçais de prata, púlpito de madeira em forma de
cálice.
Os sineiros com seus repiques, ou sons plangentes marcavam o cotidiano da cidade. Foram
eles: Sátiro que tocava bem ficou surdo de tanto repicar sino. Nhozinho do padre, José de
Souza, Geraldo Gonçalves, Benedito Ferreira da Cunha ( Dito da Inhá Barba), Argentino.”
A atual matriz, a quarta, foi reconstruída toda de novo: os trabalhos começaram à 1º de
setembro de 1950, e em 1953 estava pronta, com sua torre de concreto armado. É bem
diferente das igrejas de 1897 e 1909. A imagem da padroeira de Silveiras de N. Senhora da
Conceição veio de Portugal, sendo festeiros Manoel Guedes e Marianinha Guedes lá por
1878. Desembarcou em Mambucaba e quatro escravos trouxeram-na em bangüê para a
cidade. É uma imagem de 1,60 cm. de altura, estilo português.
A História da igreja de São Benedito-N.Senhora do Patrcínio, que abaixo reproduzimos foi
o senhor Clotário Cintra de Andrade,” Sr. Pitota” ( 96 anos) que nos contou: “A igreja hoje
de São Benedito originalmente foi de N. Senhora do Patrocínio, as novas gerações
desconhecem a nossa Senhora do Patrocínio.”
A construção da igreja passou por várias momentos: No início da cidade, em terras doadas,
foi erigida no alto do morro uma capela de pau-a-pique em homenagem a Nossa Senhora
do Patrocínio. Com o tempo, a capela de pau-a-pique foi ao chão e em seu lugar foi
construída uma capela de taipa de pilão. Quando Emilio Zaluar em 1860 passou por
Silveiras : ”Numa colina está edificada a pitoresca capelinha do Patrocínio”.
Quiseram então refazer a capela em um lugar de mais fácil acesso, pois esta ficava no
morro e o caminho era ruim. Escolheram um terreno no fundo do sobrado dos Soderos.
Construíram um grande galpão de tijolo, porém, como não tinham conhecimento deste tipo
de material, quando foram colocar a armação do telhado, as paredes não agüentaram e
foram ao chão. Começaram então a falar em castigo, por terem transferido a capela do
morro para aquele local.
Resolveram então trazer de volta a capela para o morro, mas agora com a ajuda de
S.Benedito, que vai para as terras de nossa Senhora do Patrocínio. A Irmandade de São
Benedito assumiu a construção da capela. A maior dificuldade encontrada foi o transporte
do material, para facilitar tiveram que construir uma estrada carroçável O pessoal da
Prefeitura, dava em serviço, aos sábados e as cozinheiras da Irmandade de São Benedito
faziam o almoço para o pessoal que trabalhava.Terminada a construção da igreja, a
Irmandade de São Benedito, pediu que fosse incluído o nome de São Benedito. Foi
requerida a licença junto ao bispo D. Epaminondas que concedeu o nome de São Benedito
para a igreja. Assim a igreja possui dois nichos a de São Benedito e a de Nossa Senhora do
Patrocínio. Documento escrito por Clotário Andrade Cintra por ocasião da inauguração da
igreja de São Benedito...
Aos quatro dias do mês de julho de ano de mil novecentos e trinta e quatro do Nascimento
de Nosso Senhor Jesus Cristo. Segundo, do movimento Constitucionalista do Estado de São
Paulo, sendo bispo dessa Diocese S. Excia Revma D. Epaminondas d’Avila e Silva, e
vigário da paróquia o Revmo. Senhor padre Antonio Pereira de Azevedo depois de
concluídas as paredes externas desta capela de São Benedicto e Nossa Senhora do
Patrocínio. Foi incumbido o arquiteto e decorador José Carlos da Cunha de erigir este altar,
conforme de sua autoria (...) demonstração que existiu em Silveiras, terra que tanto
amamos, um povo de espírito empreendedor que jamais mediu esforços para auxiliar as
obras religiosas procurando elevar o nome de Silveiras, e o desse povo, no seio da religião
cristã, da qual foram fervorosos crentes, e respeitadores... Assinam: Roberto d Miranda
Alves, Carolina Togeiro de Andrade, Clotario Andrade Cintra, José Carlos da Cunha,
Pedrina Rodrigues, Guilhermino de Azevedo, professor César Sodero de Carvalho, João
Mendes de Azevedo, Péricles Sodero, Domingos Fortes Netto, Geraldo Inácio da Rocha,
Paulo Gonçalves Barros, Genésio Rodrigues da Silva. Em 1967, foi modificada a
construção do altar. A igreja de 1934 foi inaugurada em 1938, pelo pe Antonio de Azevedo
Em Silveiras havia uma grande participação da comunidade na igreja como testemunha:”
Maria de Lourdes Guedes Santos, casada com Arthur Rodrigues dos Santos que cuidou da
igreja desde os 10 anos de idade, a família toda cantava na Igreja por música ( a avó
Palmira Ribeiro era mineira de Ouro Fino; o avô, descendente de português trouxe a
imagem de N. S. da Conceição, de Portugal.
Quem fundou o Asilo foi Padre Antonio, quem lidava no asilo era a familia de Maria de
Lourdes Guedes Santos. Na igreja, cantavam: D. Serafina, D. Amália, Nhá Nica Ferraz,
Nenê Braga, tocavam na igreja: Sebastião Ferraz, flauta; Alcides Prado, flauta; Maria Lima
Julião, órgão e harmonia; Zé Miranda.
Festas religiosas – a mais importante era do Divino. As despesas da festa corriam por conta
do festeiro. O capitão Pimentel fez uma grande festa, 1920, no largo da cadeia. Havia
pirâmides de doce, barril de vinho. Havia leilão que reunia os comerciantes que “faziam
fogo” pra arrematar as prendas.“Os objetos da igreja foram comprados com esmolas e
contribuições dos fieis e há um sentimento de posse, de propriedade da comunidade, que se
sente lesada com o desaparecimento de objetos da igreja ocorrido durante a gestão de
alguns padres – houve alguns jogadores e mulherengos que desbarataram o patrimônio da
igreja, formado com fé e sacrifício pelos fieis.”
A VIDA DEVOCIONAL NO CAMPO.
Sabemos que até 1888 havia escravos em Silveiras. . Porém, nas pastorais e documentos
por nós consultados a única referência à palavra escravo, foi registrado no livro do Tombo
da Matriz na pastoral de 1873: que fala sobre a melhor participação dos fieis no Jubileu
universal de Leão Papa XIII para implorar o socorro divino, seria a libertação de escravos.
Na fazenda do Pe. Joaquim Ferreira da Cunha os escravos eram batizados, e casados na
igreja, bem como em outras fazendas onde rezavam o terço com seus senhores, mas o culto
africano permanecia em alguns festejos. Quando libertos entravam para alguma irmandade
na cidade.
A presença do mundo religioso nunca se achava distante da população; as primeiras
palavras de surpresa ou de receio que as mulheres e filhas de fazendeiros eram “Nossa
Senhora” ou “Mãe Santíssima”. Crianças escravas ou livres encontrando-se com pessoas
mais velhas nas estradas ou dentro de casa, pediam a bênção que era respondida “Deus te
abençõe”.
As pessoas mais simples que tinham dificuldade em ir à igreja, enfrentavam, frio, chuva
andavam quilômetros com os filhos nos braços, para assistirem a cerimônia da Semana
Santa na cidade.
Na morada do rico fazendeiro, o espaço destinado a um oratório junto á sala ou capela, com
o santo de sua devoção, dentro ou fora do casarão ressaltava a ligação deste com a poderosa
Igreja Católica, e até as práticas religiosas foram levadas para dentro da casa do fazendeiro
de café. Nas roças as pessoas, mais simples, possuíam também em suas casas um pequeno
oratório com seu santo de devoção, muitas vezes talhado na madeira por eles mesmos.
A presença de padres nas fazendas era rara, quando isso ocorria, escravos eram batizados e
recebiam nomes cristãos. As crenças africanas e católicas brasileiras, encontraram um
ponto de contato na atitude íntima e pessoal em relação aos santos. Os tropeiros quando
viajavam costumavam levar um altar portátil. Construíam-se pequenas capelas ao longo das
estradas, como também as cruzes marcavam a morte dos menos afortunados.
As romarias à Aparecida do Norte, um ato de fé, quando pediam ou agradeciam a uma boa
colheita e aproveitavam para negociar a colheita.
LISTA DOS VIGÁRIOS DE SILVEIRAS.
O primeiro foi o Pe. Manoel Felix de Oliveira, nomeado em 1830. Era filho de Francisco .
Quando em 1844 foi instalado o município, ele foi um dos vereadores. O 2º. vigário foi o
Pe Manoel Bento Azevedo Pereira que permaneceu em Silveiras até 1852; O 3º. foi o Pe
Antonio de Oliveira Castro, que tomou posse da paróquia em 1871 e ficou até 1895, sendo
quase 35 anos como vigário; 4º. vigário foi o Pe Felipe Speranza, de 1896 a 1897; 5º.
vigário foi o Pe João Alberto Stupenengo, de 1897 a 1902; 7º. vigário foi o Pe. Arcanjo
Dángelo de Vallo Lucano, nascido na Itália. Ficou de 1903 até 1905; O 8º. foi o Pe.
Fernando de 1906 a 1908.
De 1909 a 1911 a paróquia ficou entregue aos padres capuchinhos de Taubaté. Em 1911
pertenceu a Cruzeiro. Em 1912 foi nomeado o 9º. vigário , Pe. Loielo Bianck. Em 1914, o
10º. vigário foi o Pe. Antonio Augusto Dias. Em 1916 o 11º. o vigário foi o Pe Antonio
Vilela e em 1917 o 12º. Pe José Bendito Monteiro permaneceu de 1917 à 1920; o 13º o Pe
Antonio Joaquim Loureiro, que ficou até 1922; o 14º. vigário, Pe Antonio Pereira
D`Azevedo ficou até 1948.
PASTORAL, VISITADOR, MISSÕES
O Livro do Tombo das Paróquias registravam todos os acontecimentos da vida religiosa da
paróquia; traziam as Encíclicas,fielmente, copiadas, com as novas orientações do Papa, a
tomada de posse dos novos bispos; as Cartas Pastorais, relatórios de Visitas Pastorais,
nomeação de padres, petições (de terras, benesses..); notas das despesas da igreja-registrada
pelos fabriqueiros; as Provisões e Circulares ; o alistamento militar, registros de batismo,
casamento, Extrema Unção,Crisma...
As Cartas Pastorais terminavam assim...”Esta nossa Carta Pastoral será lida, á estação da
Missa, em nossa Igreja Catedral e em todas as Matrizes, capelas oratórios públicos e de
Comunidades religiosas. Os Revmos Párocos, Curas e Capelães a registrarão no respectivo
livro do Tombo da Paróquia...”
Durante o Império Carta Pastoral deixa bem clara a união entre o Estado a Igreja quando o
bispo se diz membro do Conselho de Sua Majestade o Imperador a visita pastoral utiliza
estratégias destinadas a conservar e aprimorar a fé dentro do espírito da devoção: eliminar
as crenças presentes na população, sob formas de práticas mágicas e comportamento
público em festas e procissões Para isso, era necessária uma preparação do clero e uma
doutrinação sistemática dos fiéis pelos párocos com o recurso do catecismo e uma
constante vigilância sobre os leigos e o clero, exercida pelas autoridades episcopais, por
meio de visitas pastorais que determinavam o que era bom e o que era mal a resignação e a
humildade.
Carta Pastoral de 1861 D. Sebastião Pinto do Rego-mostra a sua indignidade para o alto
mister que lhe foi concedido. O estilo utilizado na Carta: muitos adjetivos tornando o
discurso confuso. Dirige-se ao egrégio cidadão que preside a Província, aos membros da
magistratura como filhos da igreja que têm o dever de reprimir as blasfêmias, escândalos
públicos e reprimir os violadores das festas sagradas.
Carta Pastoral-1873-D.Lino Deodato Rodrigues de Carvalho, anunciando próxima visita e
despedindo-se dos seus diocesanos.
Dá os limites de sua diocese: São Paulo, Paraná e parte de Minas Gerais. fala sobre a
sobrevivência da igreja durante 19 séculos; a unidade da igreja em relação à doutrina e a
direção do Papa;...submissão aos pastores legítimos; o caráter de da igreja em questão de
ensino doutrinário, escolha de seus ministros e nas questões de fé e costumes; infabilidade
do Papa independência quando fala ex cátedra. - dirige-se aos padres da diocese exortandoos:
à união, pregação da palavra de Deus; neutros nas lutas políticas; como cidadãos,
grande amor à pátria; modelos de caridade; aceitarem as admoestações do bispo
(humildade).
Para a comemoração do Jubileu do papa Leão XIII Os bispos brasileiros declararam em
cartas pastorais, que o modo mais digno e nobre de celebrar a festa sacerdotal de Leão XIII
era para os possuidores darem liberdade a seus escravos e para os outros membros da
comunhão empregarem em carta de alforria os dons que quisessem oferecer ao santo padre.
Carta Pastoral –D.Lino, proíbe aos padres se alistarem nas sociedades maçônicas e alerta
que desde 1738 o Papa Clemente XII e mais tarde 1751 Bento XIV, 1821 Pio VII, Leão XII
em 1826,em 1846 nova Encíclica condena a maçonaria...
Circular de 10 de outubro de 1873, mandando observar a disposição firmada no Concílio de
Trento, relativo aos proclamas matrimoniais ou banhos, novas dispensas nos casos de
urgência...
Visita pastoral nos dias 11, 12, 13, 14 de novembro de 1873 d D.Lino quando: administrou
confirmação... visitou pia batismal e a sacristia; inspecionou as alfaias e paramentos.
Reparou que a matriz necessitava de reparos e novos paramentos, para o qual contava com
a colaboração dos fieis. Exortou o vigário a explicar o evangelho aos domingos e dias
santos de guarda ...conhecimentos da religião.
Pastoral –Publicando o Jubileu do Ano Santo e a encíclica “Gravibus Eclezia”de 1874
Circular 2 de fevereiro de 1874, a respeito do jejum; todas as sextas feiras ( menos a que
coincidir com o Natal) e mais a 4ª, 5ª e 6ª feira da Semana Santa obrigatório para os
maiores de 21 anos, nos dias de jejum obrigatório podiam usar laticínios.
Com a Proclamação da República e a separação do Estado da Igreja, o casamento civil, os
registros civis de nascimento e morte. Os casamentos religiosos continuam muito mais
numerosos. O Estado, demora para assumir a nova função, fornecendo livros para a os
registros, assim estes são feitos muitas vezes nos livros da igreja. O ensino religioso
realizado pelos professores, com formação católica, em sala de aula “As crianças
freqüentavam o catecismo até os 14 anos; no final do ano havia uma provinha, o
examinador era o padre. Estudavam os milagres de Cristo, a vida dos Santos e faziam
teatro, como Santa Filomena.”
Mesmo sob a ordem do Estado durante a questão religiosa, vislumbra-se através de
afirmações da infabilidade do Papa, da igreja que sobreviveu por 19 séculos o desejo de
independência da igreja em relação ao Estado, quando condena a maçonaria em suas
paróquias Com a República os padres capuchinhos se tornaram mais presentes na região,
quer como párocos como o Vigário Frei Jacyntho de Siqueira, Cap ( 1909); ou Missões
quando percorriam as fazendas e as capelas batizando, casando, e ensinando o catecismo...
”Os padres capuchinhos que estiveram em Silveiras como o Frei Vital, frei Bernardino
eram pessoas virtuosas, humildes e brincalhonas, passavam pelas ruas. Jogavam peteca e
brincavam no entrudo, com as crianças, no Chafariz, conversavam muito com o povo.”
Carta Pastoral tomando posse D.Epaminondas Nunes de Ávila e Silva do bispado de
Taubaté 1.11.1909. Copiada das páginas 71 a 73 com uma letra de aparência feminina,
semelhante à caligrafia ensinada nos colégios das Irmãs da Congregação de São José (de
Chamberry). O estilo é pomposo, com citações eruditas, do latim autores franceses. Apoio
na História da Antiguidade Clássica greco-romana. Os problemas enfrentados pela igreja,
cuja causa atribue a progressiva descristianização levada a efeito pelo estado laico;
- põe em evidência os seguintes itens:
. a caridade, abolição da escravatura como conseqüência do espírito cristão
. a mulher, a criança, o pobre, o doente só lembrados pelo cristianismo.
. preconceito em relação a raças e nacionalidades.
Nomeia a obra da Conferência Vicentina no Brasil incentivando sua criação na sua diocese
apostolado leigo.
. critica a teoria do estado educador-que dá instrução mas não formação.
.salienta o papel da família crstã na educação
. seguir a normas da encíclica de Pio X “Acerbo Nimis
Termo de Posse do Vigário Padre A. Dangelo da paróquia de Silveiras com 5.000 pessoas
Observação: a presença de padres estrangeiros durante a República ...Fui ordenado em
1902 na Diocese de Vallo Lucano . Há três anos estou nesta Diocese com licença da
Sagrada Congregação e termina em dezembro de 1905 Certifico que no dia 5 de julho de
1903 em virtude da portaria do Exmo Ilmo Vigário Geral Manuel Vicente da Silva –
bispado de S.P. ..Limites da freguesia : “Divide com as freguesias de Queluz, Areias,
Campos Novos e São Antonio da Bocaina”...As capelas filiais: capela dos Macacos, do São
Bom Jesus da Bocaina, de Nossa Senhora do Patrocínio, de S.Sebastião do Palustal e de
S.Sebastião do Tijuca.”....Foram realizados 271 batizados na Matriz escritos nos Livros
Paroquiais...crianças batizadas tardiamente....27 casamentos – poucas pessoas unidas pela
lei civil. enfermos recebem extrema-unção mesmo nos sítios mais distantes... estranha o
costume -nem todos costumam trazer os corpos para encomendação e chamar para
acompanhar os enterros. 29 de agosto d 1908, D. Duarte Leopoldo e Silva, nomeia vigário
de Silveiras Fernando Tancredi e anexa a paróquia de Jatahy a Silveiras. 10 de setembro de
1909 Dom Epaminondas de Ávila Nunes e Silva-bispo de Taubaté- deu aos padres
Capuchinhos do Convento de Taubaté Monsenhor Antonio do Nascimento Castro-
Governador do bispado de Taubaté desde 1905, nomeia novo vigário Frei Bernardino de
Lavalle.
Cap. –Frei Salvador Covedine,Cap.
IRMANDADES, CONFRARIAS, SANTA CASA E ASILOS
As irmandades de feição predominantemente laica, além de promoverem o culto a seus
patronos celestes, encarregavam-se de promover a mútua assistência entre seus integrantes.
Valorizavam a religiosidade leiga, a difusão do culto dos santos e os esforços missionários
destinados a evangelização da população. Foram, também, importantes no processo de
aculturação da população negra. É, segundo a Constituição de 1824, de exclusiva
competência do Poder Civil a Constituição orgânica das Ordens Terceiras e Irmandades no
Brasil.
Durante o Império apareceram várias irmandades, que continuaram a existir na República
graças a perseverança e a fé da população.
Em Silveiras tivemos ainda temos as seguintes irmandades:
A Irmandade do Santíssimo Sacramento é a de maior representação – era constituída só por
homens – numa sociedade machista, a presença masculina na igreja tinha que ser
prestigiada; o palio que conduzia o S.S. Sacramento nas procissões era sustentado pelos
membros dessa associação A Irmandade de São Benedito, atualmente a mais numerosa. O
que não possue em poder econômico, tem em mão de obra – constitue força de trabalho
poderosa nas reformas, reparos e limpeza dos próprios da Igreja. São presença atuante nos
velórios, festas e demais eventos. A força da Irmandade pode ser observada na construção
da igreja de São Benedito.
A Confraria de São Vicente de Paula, com finalidade social: dar abrigo, assistência material
e espiritual à velhice desamparada. A confraria foi introduzida no Brasil pelo Conde de
Algezur – Francisco de Lemos Pereira Coutinho.
No Livro do Tombo encontramos a formação da confraria primeiramente o Bispo .em 1861
aconselha a criação da Confraria em Silveiras que foi estabelecida a 17 de julho de 1911
“25 católicos da melhor sociedade depois de receberem a comunhão”.
O asilo São Vicente de Paula foi criado pelo padre Antonio de Azevedo no meado do
século XX. A Irmandade do Sagrado Coração de Jesus Sagrado Coração de Jesus –
devoção existente no Brasil desde o séc. XVIII difundida no nordeste pelo Jesuíta Padre
Malagrida. Seus membros são geralmente casados ou viúvos – mulheres e homens. O cargo
de zeladora é geralmente ocupado por pessoa de prestigio na comunidade. Nas festas da
igreja, nas quermesses, nas missões e pregações de retiros de função espiritual, eram
liderados por elementos dessa irmandade.
No livro do Tombo consta: ”A Introdução do Sagrado Coração de Jesus, 1º. de novembro
de 1884, na matriz desta cidade depois da missa conventual, reunido grandioso número de
povo..foi solenizado com toda decência, respeito o ato ...sagração desta Paróquia ao S.
Coração de Jesus conforme foi ordenado pelo Exmo. Revmo.Sr. Bispo Diocesano por essa
pastoral de 26 de agosto Silveiras 20 de novembro de 1884 – Vigário Cônego Antonio de
Oliveira Castro .”.
Congregação Mariana – masculina e feminina – finalidade de propiciar vida piedosa à
mocidade incentivando a oração em comum, o convívio dos jovens orientados segundo os
padrões religiosos e morais da época, aceitos pela juventude, que assim podia
confraternizar com elemento do sexo oposto.
O Sr. Zequinha Lemos (87) é depositário dos documentos referentes à Congregação
Mariana e à Conferência Vicentina, assim nos relata: “Pe Antonio fazia reuniões no salão
paroquial, onde liam a vida de Santo Afonso Maria de Ligório e São Clemente , procurando
inspiração para a criação da Congregação”
O prédio da Congregação faz parte da escritura da igreja. Foi construído de 1939-1940 “D.
Epaminondas de Taubaté era ligado à Província Primária de Roma da Imaculada Conceição
de São José, providenciou a 17 de dezembro de 1937 a criação da Congregação Mariana em
Silveiras.”
A Santa Casa de Silveiras foi fundada pelo padre Joaquim Ferreira da Cunha que possuía
muitos escravos em sua fazenda, quando estes ficavam doentes eram para lá que os
encaminhava.
Com os juros das apólices do Banco do Rio de Janeiro, mantinha a Santa Casa isto n na
época do vigário, Pe. Antonio de Oliveira Castro.
Considerações Finais.
O repique do sino pela manhã, ao meio dia, às seis horas marca a cadência da vida de
Silveiras, bem como das festas e da morte. Em Silveiras a população e a igreja do período
relatado – 1830- 1930-, estava fortemente interligada a fé e ao poder, como pudemos
observar nos documentos de época: livro do Tombo da Matriz, entrevistas, jornais. O Brasil
católico do Império,viveu contradições como a escravidão, a questão religiosa, o regalismo.
Com a República e a criação do Estado laico, a fé e o poder, seguram a situação como
demonstra a afirmação, de Dom Candido Mendes: “Um bom clero, instruído e edificante,
como desejamos, poderá por meio da prédica e do ensino, por meio de uma discussão
inteligente e leal, esclarecer a opinião, conseguindo que César se limite aos horizontes do
seu poder, e não usurpe o que é de Deus”
Bibliografia
Moraes, Eugenio Vilhena O Clero e o Patriotismo no Brasil, Imprensa Nacional, Rio de Janeiro,
1929
Oliveira Torres, João Camilo de História da idéia religiosa no Brasil, Editorial Grijalbo
LTDA,S.Paulo , 1968.
Toledo, Francisco Sodero Igreja , Estado, Sociedade e Ensino Superior A Faculdade Salesiana de
Lorena . Taubaté: Cabral Editora e Livraria Universitária, 2003.
Almanak,1885, Província de S.Paulo
Jornal “O Silveirense” novembro de 1959
Documentos
Entrevistas...

Silveiras

Silveiras

Nossa História

Nossa História

Advogados

CONHEÇA SILVEIRAS

Silveiras , a ntigo rancho de tropeiros, desenvolveu-se no século XIX com a introdução do café no Vale do Paraíba. Em 1842, foi elevada...

Acesse aqui

Acesse aqui
Digite o nome da pessoa ou negócio que procura em SILVEIRAS SP:

Páginas